Websetorial por Patrícia Marrone

  • Em 2019, quais produtos e setores mais se destacaram no mercado?

No segmento de “alimentos para fins especiais”, cujo consumo aparente gira em torno de 6 bi de dólares, tem se destacado o crescimento das linhas relacionadas a: “concentrados de proteínas e outras preparações, incluindo pós e gelatinas”; “complementos alimentares e suplementos vitamínicos e funcionais”, e as “vitaminas”. Por outro lado, os “alimentos para grupos populacionais específicos, gestantes, crianças e idosos” e “adoçantes” apresentaram queda no consumo em 2019.

O segmento de “bebidas dietéticas e de baixas calorias”, cujo consumo aparente gira em torno de US$ 1,5 bi, apresentou crescimento agregado próximo de zero, mas o resultado mascara uma grande mudança do mix de produtos dentro deste segmento, com refrigerantes diet e light sendo substituídos por infusões, chás e outras bebidas dietéticas de baixas calorias.

  • Quais foram as principais tendências de mercado no ano de 2019?

Para entender o mercado, em primeiro lugar, é importante entender como as famílias consomem os alimentos e bebidas por faixa de renda, pois variações no emprego e na renda afetam a demanda de cada segmento, de forma diferente.

A última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) mostrou que as 69 milhões de famílias brasileiras, compostas, em geral, por 3 indivíduos, dispendem em média 17,5% da sua renda com alimentação. As 51 milhões de famílias com renda abaixo de R$ 5.724 reais dispendem de 19% até 23% da sua renda com alimentação. Este item corresponde a algo entre 16 e 11% da renda para as 18 milhões de famílias com ganhos superiores a R$ 5.724 reais.

A pesquisa também mostrou que as despesas mensais com cereais, leguminosas e oleaginosas; e com farinhas, féculas e massas, em valor, se distribuem de forma relativamente homogênea entre as famílias, apesar de pesarem proporcionalmente mais no bolso das famílias nas menores faixas de renda. Leites e derivados correspondem a 7% da despesa média mensal familiar com alimentos, em quase todas as faixas de renda, excetuando-se a superior (5,8%). Já o consumo de alimentação light e diet e adoçantes é mais intensivo, em valor e proporcionalmente, na cesta das famílias com renda igual ou superior a R$ 9.540 reais.

Bebidas não alcoólicas light e diet também têm seguido o perfil dos alimentos diet e light ao verificar-se uma maior concentração de consumo pelas famílias de média-alta renda e nas regiões sul e sudeste. O consumo de águas, outras bebidas e infusões têm aumentado bastante: de 8,5% em 2002-2003 para 9,7% em 2008-2009 e 10,6% em 2017-2018.

O padrão de consumo de alimentos e bebidas impacta em questões epidemiológicas, que por sua vez, também impacta o consumo de alimentos, sendo um efeito circular. Por exemplo, o número de pessoas obesas no Brasil aumentou 67,8% entre 2006 e 2018, com o índice passando de 11,8% (2006) para 19,8% (2018). O aumento na obesidade ocorre entre crianças e adultos, e no caso dos últimos, está associado ao aumento do consumo de álcool.  Por outro lado, os brasileiros têm ampliado a adoção de hábitos saudáveis, aumentando o consumo de frutas e hortaliças e reduzindo o de refrigerantes e bebidas artificiais. O consumo de alimentos orgânicos cresceu no país e 84% dos consumidores desses produtos afirmam consumi-los em busca de saúde, estando cientes da obrigatoriedade do selo que identifica que o produto é orgânico.

O mercado de bebidas não alcoólicas no Brasil, incluindo as categorias de águas, refrigerantes, sucos, chás, cafés e energéticos, deve crescer 10,6% em volume entre 2018 e 2023, passando de 24,1 bilhões de litros no ano passado para 26,6 bilhões de litros ao fim do período. O consumo de água engarrafada, que chegou a 8,6 bilhões de litros no país em 2018, deve ser o principal gatilho desse aumento, com crescimento de 20,2% até 2023. O motivo é a busca do consumidor por opções de bebidas mais saudáveis. Muita gente está trocando outras bebidas para consumo no lar, como refrigerantes e sucos, por água.

O exportador brasileiro de alimentos e bebidas enfrenta inúmeras barreiras comerciais impostas por países que compõem o G-20. Entre os produtos que mais enfrentam barreiras estão os lácteos e o suco de laranja, que são hiper taxados em países como China e Japão por questões como teor de sacarose e temperatura.

  • E para 2020? Quais as tendências previstas para o mercado de alimentos e bebidas para fins especiais?

O ano de 2020 deverá ser de recuperação, com crescimento do PIB entre 2,0% e 2,5%, estimulada pelo consumo das famílias (com peso de 64,5% sobre o PIB) e pelos investimentos. Entretanto, há previsões do IBRE/FGV de que o nível da renda registrado na pré-recessão de 2014 – medido pelo PIB per capita – demorará de 6 a 18 anos para ser atingido.

Com o fim do efeito gerado pelo estímulo da liberação do FGTS, em 2019, juros mais baixos, crédito e a lenta e gradual retomada do emprego estimularão o consumo doméstico.

O nível que está previsto para a taxa de câmbio, de R$/US$ 4,00 – R$ 4,10, contribuirá para melhorar a competitividade de alimentos e bebidas para fins especiais brasileiros exportados e para a substituição de importações, porém, não será possível contar com o estímulo à produção vindo das exportações, pois o ambiente internacional ainda reflete um cenário conturbado.

Os fatos expostos exercerão impacto positivo sobre a demanda de produtos da indústria local de alimentos para fins especiais e de bebidas não alcoólicas e sobre a melhora nas margens de lucratividade nas empresas.

A retomada da atividade na construção civil, que se vê com a queda nos juros, ampliação do crédito e os novos lançamentos imobiliários, estimulará o consumo das famílias de baixa renda e a consequente recuperação das compras de produtos do setor representado pela ABIAD, como os lácteos, por exemplo.

A produção industrial do setor de alimentos deve crescer em 2020, em torno de 3%, voltada para atender a demanda do mercado interno. No caso das bebidas não alcoólicas o aumento médio anual para as águas e infusões para o período de 2018 a 2023 é estimado em 3,7%, ante um crescimento médio para o setor de bebidas não alcoólicas de 1,4% ao ano.

Portanto, as perspectivas para 2020 são de margens melhores e de aumento do consumo com a melhora da economia.

  • Quais são as tendências de consumo deste mercado para 2020?

As informações que colhemos e temos disponibilizado nas últimas páginas dos boletins produzidos pela Websetorial para a ABIAD, ao longo de 2019, na seção “Perspectivas para o setor”, nos levam a concluir que as tendências relativas a questões como: formulação de produtos, logística e distribuição, uso de novas tecnologias para a individualização do cuidado e sustentabilidade são as seguintes:

Mudanças na formulação de produtos: aumento no teor de proteínas, redução de açúcares, redução ou exclusão de conservantes e aromas artificiais, acréscimo de ingredientes orgânicos ou naturais. Também o acréscimo de probióticos naturais nos alimentos sem lactose, sem glúten e sem conservantes. Alguns exemplos:

  • Iogurtes com alta concentração de proteína — entre 14 e 25 gramas. Adição de Whey Protein e caseína estão entrando na receita, além da ausência de lactose e açúcar;
  • Leites com adição de fibras e vitaminas, zero lactose, orgânicos, com Ômega 3 e mais proteína;
  • O mercado de leite vegetal tem avançado no país, o que demonstra a busca por ampliar o leque de opções para atender aos diferentes perfis de consumidores e suas demandas nutricionais;
  • Alimentos e suplementos para vegetarianos e veganos: desenvolvimento de linhas de suplementos especialmente para o público vegetariano, que não consome carne e, especialmente, o vegano, que não consome nenhum item derivado da exploração animal, por exemplo, a ‘maionese’ sem ovos, feita à base de plantas e proteína à base de vegetais.

Mudanças na logística de distribuição dos produtos: oferta de alimentos em geral, nutrição infantil e petcare, e também, de bebidas por plataforma digital, como a Amazon, que muda a experiência de entrega, o valor do frete e o prazo; parcerias com aplicativos de entrega como o Ifood;

Oferta de produtos e experiências individualizadas, por meio do uso de inteligência artificial e biotecnologia para detectar as preferências individuais e adaptar os produtos;

Sustentabilidade das florestas: desenvolvimento de produtos que usem insumos provenientes da Mata Atlântica e da Amazônia e que colaborem para viabilizar economicamente as florestas, como o cacau e o Açaí;

Novos formatos de embalagens e novos rótulos: lácteos não refrigerados, em embalagens longa vida, com 15, 17 ou 24 gramas de proteína por unidade;

Embalagens sustentáveis:  fabricantes de embalagens de papelão e de garrafas plásticas lançaram o projeto Paper Bottle Community, buscando impulsionar o desenvolvimento e a industrialização de garrafas perfeitamente eficazes, recicláveis e produzidas unicamente com biomateriais.

O projeto objetiva desenvolver e produzir, em escala industrial, garrafas inteiramente recicláveis à base de celulose de madeira. Elas serão revestidas com uma camada impermeável, também fabricada com biomateriais, capaz de resistir a líquidos, CO2 e oxigênio. A garrafa de papelão poderá ser usada como embalagem para cosméticos e produtos líquidos, como bebidas gasosas ou não.

  • Como é feito o trabalho da Websetorial com a ABIAD? Como funciona esta parceria e como geralmente são feitos os levantamentos de dados de interesse?

A Websetorial atende a ABIAD desde 2016. A metodologia de pesquisa que adota foi desenvolvida com a participação da diretoria e dos gestores da entidade. Busca e analisa dados dos segmentos industriais representados, baseados em fontes oficiais como a Receita Federal do Brasil, IBGE, Ministério do Trabalho e do Ministério da Economia Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

A partir desses dados, gera os boletins e as apresentações em PPT disponíveis no site da Websetorial para download dos associados. O objetivo é melhorar a interlocução da entidade e dos associados com os respectivos parceiros (stakeholders) e contribuir para o planejamento de ambos, com base em informações relativas aos mercados nacional e internacional.

  • Tem algo a mais que gostaria de acrescentar ou destacar que considere relevante para o informativo?

Existe uma profusão de relatórios e estudos de mercado de empresas de pesquisa sobre nichos do mercado de alimentos para fins especiais. Quando temos acesso a tais informações, pois são de fontes privadas, temos o cuidado de verificar se estão coerentes com dados oficiais e comparamos com dados de outros setores que atendemos para verificar se há sentido nestas informações.

A colocação de sensores sobre produtos, que virá com a indústria 4.0, e a rastreabilidade trarão grandes avanços no aprimoramento das informações de mercado. Serão muito úteis para o melhor entendimento, em tempo real, da dinâmica de algumas linhas de produtos e nichos deste setor, que são difíceis de serem captados nas bases hoje disponíveis.

  • Pode fazer uma breve apresentação sua e da Websetorial?

A Websetorial é uma empresa de consultoria econômica que auxilia na definição e embasamento de pleitos, elabora políticas setoriais e desenvolve estudos sobre temas de interesse específico das entidades e de órgãos governamentais, privados ou multilaterais; mune as entidades e seus associados com dados atualizados periodicamente e com boletins trimestrais de análise econômica.

Patrícia Marrone é sócia-diretora da Websetorial, economista formada pela Universidade de São Paulo e mestre em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo. No mestrado, foi bolsista do Fundo Sasakawa de Bolsas para Jovens Líderes (www.sylff.org). Cursa doutorado em Engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Com cursos na Universidade de Chicago e na Wharton School (EUA), foi Secretária do Conselho de Desenvolvimento Econômico da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. Atua principalmente nos seguintes temas: microeconomia, desenvolvimento de análises, estratégias e políticas industriais setoriais.

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