Modelo de rotulagem semafórica é o mais claro para o consumidor, aponta pesquisa.

Proposta defendida pela indústria de alimentos é alvo de críticas de especialistas.

RIO — A postura dos consumidores mudou nos últimos anos quando o assunto é alimentação: demandam mais informações e estão mais questionadores sobre aquilo que consomem, buscam opções mais saudáveis e se preocupam em observar o que diz nos rótulos e embalagens dos produtos que estão levando para casa. Há três anos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) trabalha com um grupo de discussão, com a participação de representantes da área de saúde, da academia, da indústria e de órgãos de defesa do consumidor, para pensar mudanças na forma de apresentação de informações nutricionais, por meio de rotulagem frontal dos produtos. A regulamentação hoje em vigor sobre rotulagem nutricional tem mais de 10 anos. Vários modelos de rotulagem estão sendo estudados pela agência. Entre eles, o apresentado pela Associação Brasileira da Indústria da Alimentação (Abia), o adotado pelo Chile, o desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e o da Fundação Ezequiel Dias (Funed). As propostas serão submetidas aos consumidores brasileiros através de pesquisas.

A proposta da indústria é de uma rotulagem nutricional frontal com base indicativa por porção, onde os ícones de sódio, açúcares totais e gordura saturada passam a ser coloridos, em verde, amarelo e vermelho, cores de entendimento universal, sinalizando os níveis de nutrientes em relação à sua recomendação diária. Diferente da apresentada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que, a partir dos modelos chileno e equatoriano, desenvolveu um novo padrão, que consiste em triângulos pretos com a borda branca para que a informação se destaque na frente da embalagem.

A Abia, em parceria com o Ibope Inteligência, realizou uma pesquisa para entender a relação do consumidor com os rótulos e suas principais necessidades. Foram ouvidas 2.002 pessoas. Entre os modelos apresentados, o semáforo nutricional foi apontado por 65% dos entrevistados como o mais claro e didático para entender as informações nutricionais e 64% acham que o semáforo nutricional cumpre os requisitos para auxiliar escolhas mais nutritivas e saudáveis.

A Abia defende que o formato do modelo de rotulagem semafórica possibilita que o consumidor encontre de forma mais fácil a característica dos alimentos, o teor de cada nutriente, para que tenha o poder de escolha dentro do contexto de uma dieta equilibrada, diversificada e inclusiva.

— A realização desta pesquisa foi muito importante para obtermos a opinião da população brasileira. Os dados coletados mostram uma clara preferência pelo modelo de rotulagem frontal com semáforo quantitativo proposto pelo setor, uma vez que ele é informativo e educativo, além de ter fácil entendimento para toda a população — afirma Daniella Cunha, diretora de Relações Institucionais da Abia.

Gerente executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Pablo Cesário reforça que o modelo do semáforo demonstrou ser o que mais desperta o interesse das pessoas pela busca de informações nutricionais:

— Isso é fundamental quando pensamos em garantir eficiência a uma política pública como está em discussão. O que adianta os rótulos serem fontes seguras de informação, se elas não forem percebidas pelas pessoas? Hábitos saudáveis são resultados de escolhas equilibradas, não se desenvolvem por imposição.

O estudo aponta ainda que a população já tem por hábito consultar informações nas embalagens, mas ressalta a necessidade da adequação e revisão de alguns itens. De modo geral, 3/4 da população procura informações nas embalagens par auxiliar na escolha dos produtos. A tabela nutricional é o terceiro item mais buscado, com 21%. Os itens mais observados pelas pessoas é o prazo de validade ou data de fabricação (45%) e preço (24%). Advertências relacionadas à saúde (diet, light, sem colesteral, sem gordura trans, sem lactose, contém glúten etc) são buscadas por 18% dos entrevistados. Há ainda quem se preocupa em verificar marca ou fabricante (13%) e lista de ingredientes (10%).
Aumentar o tamanho das letras/números (27%) e trazer informações mais claras (21%) são as principais demandas da população para melhorias na tabela nutricional. A apresentação do porcionamento, complementando medidas em gramas e litros, também aparece como uma necessidade dos brasileiros, vindo ao encontro da proposta apresentada pela indústria.
A maioria dos entrevistados (70%) dá preferência pela referência nutricional baseada em quantidades mais concretas e de fácil observação, como unidades ou medidas caseira para especificar as porções de alimentos ou bebidas, como duas unidades, duas colheres, dois copos etc.

— A indústria acredita que qualquer modelo de rotulagem, sozinho, não é capaz de substituir uma ação ampla de educação alimentar e nutricional, que oriente a população a entender as informações nos rótulos dos alimentos e saber como compor uma alimentação saudável e equilibrada, aliada à prática de atividade física — afirma Alexandre K. Jobim, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (ABIR).

O modelo defendido pela indústria de alimentos, no entanto, tem sido criticado por especialistas, que ponderam que ele pode causar confusão, pela presença de informação contraditória: quando um mesmo produto tiver sinal verde para o açúcar e vermelho para gordura, por exemplo, o seu risco à saúde pode ser percebido como menor.

— O modelo de semáforo, com ou sem esquema de cores, confunde mais do que informa e tem um tempo de leitura maior — avalia Paula Johns, diretora executiva da ACT Promoção da Saúde (ONG voltada ao controle do tabagismo e doenças crônicas).

Para o Idec, o padrão proposto pela indústria tem outro agravante: apresentar as mesmas informações da tabela nutricional com uma linguagem numérica, de difícil compreensão.
— Além disso, a sugestão de informação por porção também leva o consumidor ao engano, porque, muitas vezes, o tamanho é calculado de acordo com o interesse da indústria em divulgar mais ou menos quantidade de caloria, sódio e açúcar, e não corresponde ao padrão de consumo — completa Ana Paula Bortoletto, nutricionista do Idec.

 

Fonte: O Globo

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