Dia Mundial da Alimentação: do acesso às escolhas conscientes

Maria Fernanda Elias – Nutricionista, Mestre em Saúde Pública e Doutora em Nutrição pela USP. Membro da Câmara Técnica do Conselho Regional de Nutricionistas 3ª. Região. Gerente de Comunicação da DSM para a divisão de Nutrição e Saúde Humana América Latina.

O Dia Mundial da Alimentação, celebrado a cada 16 de Outubro, abre caminho para várias reflexões sobre segurança alimentar em sua forma mais ampla. A campanha de 2017, conduzida pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), chama a atenção para as crescentes ondas migratórias e as condições de fome e pobreza em que vivem os cerca de 1 bilhão de imigrantes. Os imigrantes são, em sua maioria, populações rurais muito dependentes da agricultura para sua própria alimentação e extremamente vulneráveis à crises, desastres naturais e outras variáveis. Por essa razão, governos e autoridades locais devem desenvolver e implementar ações que promovam a agricultura sustentável e condições de segurança alimentar e nutricional favoráveis à esses indivíduos.

Por outro lado, vale lembrar que a questão da má nutrição e da deficiência de micronutrientes vai muito além. Globalmente, nações desenvolvidas e em desenvolvimento são confrontadas com o problema da ingestão insuficiente de micronutrientes essenciais (vitaminas e minerais), ao mesmo tempo em que existe o excesso do consumo de alimentos em relação ao nível de dispêndio energético, gerando o aumento da prevalência da chamada “dupla carga da má nutrição”, ou a coexistência entre a desnutrição, excesso de peso e obesidade.

Segundo estudo publicado no The Journal of Nutrition, em março de 2015, a avaliação dos dados de 122 países em relação à (a) nanismo abaixo de 5 anos, (b) anemia em mulheres em idade reprodutiva, e (c) adultos com excesso de peso, mostrou que a maioria dos países (64%) apresentava prevalência de 2 condições avaliadas e 20% de 3 condições estudadas. A promoção da saúde, em termos de prevenção e controle da desnutrição e das doenças crônicas não comunicáveis (DCNC), é fundamental não apenas para evitar as consequências negativas diretas à qualidade de vida dos indivíduos, mas também para impedir os efeitos desfavoráveis aos sistemas de saúde e econômico dos países.

Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o setor privado como um protagonista relevante na promoção de hábitos de vida saudável, podendo atuar como empreendedor responsável na aplicação de medidas que visam acelerar o progresso mundial em nutrição. Uma das medidas preconizadas pela OMS se refere à educação nutricional e à oferta de informações adequadas e compreensíveis aos consumidores sobre seus produtos. O objetivos dessa medida é proporcionar o empoderamento dos indivíduos para que possam fazer melhores escolhas alimentares e liberdade para manter hábitos mais saudáveis.

Uma das grandes ferramentas dos consumidores na hora da compra é a rotulagem nutricional. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) reuniu acadêmicos e associações industriais para identificar e definir pontos de melhorias nos rótulos dos alimentos. Dentre as propostas discutidas, destacou-se o sistema de cores utilizado no Reino Unido, que exibe os teores energético, açúcares totais, gordura saturada e sódio, por porção, na parte frontal do rótulo. O sistema de cores utiliza os tons verde, amarelo e vermelho, de acordo com o perfil nutricional do alimento.

Segundo avaliação do grupo de trabalho, composto por membros da Universidade de Campinas (UNICAMP), Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD), Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (ABIA), Instituto de Técnologia de Alimentos do Estado de São Paulo (ITAL) e outras instituições, esse sistema possibilita que o consumidor faça comparações entre alimentos de uma mesma categoria ou de categorias diferentes, permite o alinhamento com normas em vigência no âmbito do Mercosul e, mais importante, informa sobre as características do alimento ao invés de discriminá-lo, evitando explorar o medo do consumidor.

O modelo ainda está em discussão, já que não contempla a densidade nutricional dos alimentos por meio da indicação dos teores de vitaminas, minerais e outros compostos bioativos. Entretanto, já é visto como um avanço positivo para o entendimento rápido e fácil dos rótulos, permitindo que os consumidores façam suas escolhas de maneira mais consciente, dentro do contexto de uma dieta equilibrada.

HADDAD L.; ACHADI E.; BENDECH M.A.; AHUJA A.; BHATIA K. E colaboradores. The Global Nutrition Report 2014: Actions and accountabilities to accelerate the world’s progress on nutrition The Global Nutrition Report 2014: Actions and accountabilities to accelerate the world’s progress on nutrition. J Nutr, 4: 2015

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