<strong>As transformações do mercado de trabalho do Nutricionista</strong><strong></strong> - Abiad

As transformações do mercado de trabalho do Nutricionista

PANORAMA – Pensando num panorama da profissão, quais são as principais transformações enfrentadas pela categoria na atualidade? Que fatores determinaram essas mudanças?

DANIELA – Um dos principais pontos é o número de pessoas interessadas pela profissão. Isso é muito importante e gera maior facilidade de acesso às informações relacionadas à alimentação, suplementação e nutrição. Acho que esse movimento de termos mais pessoas procurando a profissão é muito positivo. Além disso, também temos a integração entre as profissões, que faz com que se desperte interesse em todas as áreas, não somente de atendimento em consultório ou atuação hospitalar. Hoje, muitas empresas entendem que é necessário ter um especialista, por exemplo. Se reconhece que o nutricionista é o melhor profissional para falar sobre alimentação. Consequentemente, geramos melhores ofertas e produtos.

Felizmente, a profissão do nutricionista recebeu holofote. É uma busca sem precedentes. Uma profissão que está em franca expansão no Brasil e no mundo. A cada dia mais, as pessoas estão interessadas pelos temas que envolvem a nutrição. A população sabe que a alimentação é o que vai evitar doenças, e é também o que vai melhorar males físicos, sociais e psicológicos. Junto dessa conscientização, acompanha um movimento vindo de todos os setores onde o nutricionista pode atuar. Atualmente, nós temos a indústria se preocupando com o tipo de alimento que vai colocar em circulação, com o modo de preparação deste produto, com a matéria prima, com quem o produz, quem o transporta, quem o embala, e assim por diante. Tudo isso contribui para a nossa profissionalização, já que nos integramos em todas as partes da cadeia, interferindo nos fatores comerciais, sociais, econômicos e de saúde.


PANORAMA – A pauta da alimentação está em alta nas mídias hoje, e há uma rápida circulação de informações sobre o tema. Nesse contexto, também se gera muita desinformação com o intuito de induzir determinadas práticas alimentares ou mistificar os alimentos. Como você avalia a importância do nutricionista diante desse desafio?

DANIELA – Eu percebo que houve um crescimento muito rápido da profissão do nutricionista. Isso faz com que a quantidade de profissionais disponíveis seja superior à evolução de conhecimento. E isso me gera uma preocupação. O que acontece é que os nutrientes demandam tempo para apresentar uma resposta. Quando ingeridos, eles entrarão em uma rota metabólica, e o efeito não é imediato, precisa ser avaliado ao longo do tempo. Esse tempo para avaliação é extenso e faz com que, em muitos casos, não se tenha conhecimento suficiente sobre determinado alimento.

Como temos novos nutricionistas entrando muito rapidamente no mercado, esses profissionais se veem diante do desafio de lidar com as muitas informações que estão circulando, pois eles não podem ficar para trás ou desatualizados. O ideal nessas situações é ter consciência de que informação é diferente de conhecimento. A mídia pode servir como um pontapé para despertar a curiosidade das pessoas e dos profissionais, mas ela não pode ser o embasamento total. Afinal, diferente de antigamente, a mídia hoje não apenas é formadora de opinião para o consumidor final. Os jornais e revistas são formadores de opinião para profissionais também, mas é o nutricionista que detém o conhecimento sobre a bioquímica, a biologia etc. Então, precisamos sempre ter maturidade para olhar essa questão. O profissional é quem tem o conhecimento solidificado e o olhar sensível para atuar. O jornalista apenas traz dados pincelados, ele não traz avaliação profunda. Devemos enxergar esses pontos e essas diferenças. O que eu espero é que isso seja mais bem resolvido com o tempo.

PANORAMA – Como os alimentos para fins especiais podem auxiliar os nutricionistas a desenvolverem planos alimentares saudáveis para os indivíduos? E qual é a importância destes alimentos para manter a saúde coletiva, levando em conta o contexto do Brasil?

DANIELA – O Brasil tem dimensão continental, com perfis populacionais diferentes, e especificidades moldadas de acordo com cada ambiente. Isso impacta na vida das pessoas. O Norte tem uma capacidade física diferente do Sul. Partindo desse princípio, eu posso dizer que a oferta nutricional é diferente em cada região. Alguns alimentos não são viáveis para serem levados até determinados locais. O papel do nutricionista é conhecer as deficiências nutricionais crônicas dessas regiões, pois a solução de aporte nutricional é micro, deve respeitar as especificidades locais. Não há como ser macro porque, eventualmente, as pessoas não têm o hábito de consumir um determinado tipo de alimento. Às vezes, o alimento simplesmente não chega até lá, por inúmeras razões, armazenamento, dificuldade logística etc. Diante desse desafio, é recomendável que a indústria pense em denominadores comuns, saídas que possam contemplar o máximo de pessoas. Outra solução pode vir por meio de política pública, de ação coletiva. O que é natural na região virá de forma mais fácil; o que não é natural será inserido por meio de políticas públicas, com oferta de alimentos para fins especiais.

PANORAMA –  Para finalizar, sabe-se que a atuação do nutricionista não se limita ao atendimento individual de pacientes. Então, quais são as áreas em que a profissão mais avançou recentemente? E em que aspectos essas áreas podem expandir?

DANIELA – A profissão do nutricionista é abrangente e multifacetada. Se traçarmos uma linha cronológica, desde quando ela foi retirada das competências do médico, e instituída como uma profissão, percebemos que se cooptaram muitas tarefas ligadas à alimentação do ser humano e tudo aquilo que está envolvido nesse processo. A nutrição é muito mais do que as dietas de revista. Ela está no agronegócio, no hospital, na técnica dietética, no desenvolvimento tecnológico que garante a produção de alimentos, na pecuária, na linha de pesquisa acadêmica, no regulatório, na distribuição de alimentos para a população e em toda a parte industrial.

De uns 10 anos para cá, também percebemos um aporte muito forte vindo do marketing. Antigamente, não era o nutricionista que trabalhava essa parte responsável pela divulgação de um alimento ou suplemento. Hoje, há uma preocupação sobre o “como falar que ingerir determinado alimento é importante”, ou sobre como convencer um profissional a prescrever esse alimento. O nutricionista tem se desenvolvido mais nessa área para que seja capaz de fazer uma comunicação mais assertiva com o seu público. Afinal, na hora de divulgar um alimento, que preocupações devemos ter?

Atualmente, por exemplo, a medicalização dos alimentos é um problema. Vejo que, em alguns casos, se divulgam os alimentos ou os suplementos partindo do princípio de que eles terão uma atuação semelhante a que temos quando ingerimos um medicamento. Devemos lembrar que o nutriente faz parte de uma rota bioquímica. Ele não terá efeito imediato “de x para y”. Quando divulgamos dentro dessa lógica medicamentosa, estamos setorizando e categorizando os alimentos, e induzindo as pessoas a restrições. O alimento é fonte de nutriente, o suplemento também. Eles são necessários para a vida, mas não são medicamentos. Não há alimento salvador. Nesse aspecto, creio que estamos nos especializando mais para poder atuar nessas frentes e o leque de possibilidades de atuação é grande.

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