1. Os dados de 2025 indicam crescimento do consumo aparente e do emprego no setor de alimentos para fins especiais no Brasil. Como você avalia esse desempenho?
Os dados de 2025 indicam um desempenho positivo do setor de alimentos para fins especiais no Brasil, refletido tanto no crescimento do consumo aparente quanto na geração de empregos. O avanço foi puxado especialmente por categorias associadas à saúde, nutrição e funcionalidade, em linha com mudanças estruturais no comportamento do consumidor.
O consumo aparente de alimentos para fins especiais cresceu 5,0%, com destaque para concentrados de proteínas e outras preparações — incluindo pós e gelatinas — que avançaram 5,1%. Já os complementos alimentares, suplementos vitamínicos, produtos com restrição de nutrientes, funcionais e enterais registraram crescimento de 4,1%, enquanto a categoria de vitaminas apresentou expansão expressiva de 24,6%. (Esses cômputos se referem aos 12 meses de outubro de 2024 a setembro de 2025)
Esses resultados reforçam a tendência de maior procura por soluções nutricionais individualizadas, impulsionadas tanto pela busca por saúde e bem-estar, quanto por políticas públicas e regulatórias que estimulam o consumo de alimentos mais saudáveis ou funcionais.
No cenário internacional, esse movimento também se reflete em pressões regulatórias e políticas. Um exemplo é a administração Trump, que tem incentivado empresas a abandonarem o uso de corantes artificiais e a adotarem ingredientes mais naturais, sinalizando uma mudança relevante nas expectativas do mercado e dos consumidores.
Por outro lado, as bebidas dietéticas ou com baixo teor calórico apresentaram crescimento modesto, de apenas 0,5%. Ainda assim, a tendência estrutural permanece positiva: a indústria tem investido fortemente na reformulação de produtos com menor teor de açúcar, alinhando-se ao novo perfil do consumidor. As versões zero açúcar vêm ganhando espaço, com melhorias significativas no sabor e maior aproximação das receitas tradicionais.
Apesar do desempenho mais fraco desse segmento, os refrigerantes continuam sendo a bebida não alcoólica mais consumida no Brasil, com 13,4 bilhões de litros comercializados em 2024, segundo a Euromonitor. Esse dado indica que, mesmo em um contexto de transição para opções mais saudáveis, o consumo segue elevado, abrindo espaço para inovações que conciliem volume, conveniência e atributos nutricionais.
2. O aumento do consumo aparente indica mudanças na demanda interna. Quais ferramentas podem ajudar as empresas a acompanharem essas mudanças e a planejar seus portfólios de forma mais eficiente?
O aumento do consumo aparente não indica necessariamente uma mudança estrutural na demanda interna, mas sim a pujança e a resiliência do setor. Ainda assim, esse crescimento reforça a importância de as empresas acompanharem de forma sistemática a evolução do mercado para ajustar suas estratégias e portfólios com maior eficiência.
Nesse contexto, algumas ferramentas e fontes de informação são fundamentais. As empresas podem aproveitar de maneira mais estratégica os boletins e estudos disponibilizados pela ABIAD em parceria com a Websetorial, que oferecem uma leitura consolidada do desempenho do setor, dos diferentes segmentos e do ambiente macroeconômico. Esses materiais reúnem dados de mercado, tendências de consumo e informações divulgadas pela mídia especializada ao longo do trimestre, permitindo uma visão mais ampla e atualizada do cenário.
Além disso, o acompanhamento do perfil do consumidor dos produtos representados pela ABIAD, segmentado por faixa de renda e características de consumo, é uma ferramenta relevante para o planejamento de portfólio. Esse tipo de análise ajuda as empresas a compreenderem melhor os nichos em que atuam, identificar oportunidades de diferenciação e adaptar seus produtos às demandas específicas de cada público, seja em termos de formulação, posicionamento, preço ou comunicação.
Dessa forma, o uso integrado de dados setoriais, análises macroeconômicas e informações sobre o comportamento do consumidor permite decisões mais assertivas e um planejamento de portfólio mais alinhado à dinâmica do mercado.
3. Olhando para 2026, quais são os principais desafios e oportunidades para as empresas do setor de alimentos para fins especiais?
O ano de 2025 trouxe importantes lições para o setor, especialmente em função da crise decorrente da falsificação de bebidas alcoólicas, que evidenciou fragilidades nos mecanismos de controle e fiscalização. Nesse contexto, um dos principais desafios para 2026 será o desenvolvimento e a implementação efetiva de ferramentas de rastreabilidade ao longo da cadeia produtiva. Essas soluções são fundamentais para garantir a qualidade e a segurança dos produtos, fortalecer a confiança do consumidor e mitigar riscos reputacionais para as empresas do setor de alimentos para fins especiais e de bebidas dietéticas ou de baixas calorias.
Ao mesmo tempo, o cenário para 2026 também apresenta oportunidades relevantes. O acordo Mercosul–União Europeia pode abrir perspectivas importantes para a ampliação das exportações de produtos brasileiros industrializados, especialmente aqueles baseados em insumos abundantes e competitivos no país, como colágeno, cacau, café, soja, frutas e seus derivados, incluindo sucos. Esse contexto favorece o posicionamento dos produtos brasileiros no mercado internacional, agregando valor à produção nacional e ampliando o acesso a mercados com elevada demanda por alimentos funcionais, saudáveis e de origem rastreável.
Assim, o equilíbrio entre o enfrentamento de desafios regulatórios e operacionais e a exploração de oportunidades comerciais será determinante para o desempenho das empresas do setor em 2026.