Antes, consumidas principalmente por meio de ovos e carnes, de origem animal. Hoje, também aparecem adicionadas a barras, iogurtes, snacks, suplementos e até cervejas. A proteína, que nada mais é do que um nutriente necessário para a construção, manutenção e reparação dos tecidos do corpo humano, atuando também na saúde dos cabelos, órgãos e na formação de enzimas e hormônios, ganha, dia após dia, um protagonismo ainda maior na alimentação dos brasileiros.
O país, que sempre foi um dos maiores produtores e exportadores mundiais de proteína animal, vive agora uma fase de democratização do acesso a alimentos proteicos. Com isso, a proteína adicionada perde o status de atributo quase exclusivo de produtos voltados a esportistas e entra na lista de compras do cidadão comum, preocupado com a saúde e a alimentação.
Como todo fenômeno de consumo, não há apenas uma resposta para explicar o sucesso dos alimentos proteicos no Brasil. A busca por saúde e envelhecimento saudável, a procura mais recorrente por nutricionistas, o marketing em torno do mercado de bem-estar, o interesse pelas atividades físicas, a maior circulação de informações sobre a importância da proteína e, mais recentemente, uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 e o cuidado com a perda muscular são alguns dos fatores que se somam à lista.
A recomendação básica de ingestão para um adulto saudável é de 0,8 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia, ou seja, uma pessoa de 70 kg precisa consumir cerca de 56 gramas diariamente para suprir as necessidades fisiológicas básicas do organismo. Quem endossa essa referência é a Organização Mundial da Saúde (OMS), agência das Nações Unidas. Para quem treina com foco no ganho de massa muscular, porém, a necessidade pode ser maior, variando de acordo com fatores como intensidade e frequência dos exercícios.
Atender a essa recomendação para manter-se saudável e evitar os riscos associados à ingestão insuficiente do nutriente requer que boas fontes de proteína estejam presentes ao longo do dia. Não por acaso, as gôndolas dos supermercados disponibilizam hoje um leque de alimentos com proteína adicionada muito superior ao que seria possível encontrar anos atrás. É uma resposta da indústria a um mercado em que o consumidor também demonstra atenção ao que está comprando.
Na Pesquisa de Mercado da ABIAD de 2025, as proteínas aparecem entre as categorias que mais ganharam espaço nos últimos dez anos. Em 2015, eram consumidas por 16% dos entrevistados. O percentual chegou a 28% em 2020 e a 55% em 2025, mais do que triplicando no período. O movimento acompanha o crescimento de outras categorias associadas à nutrição e ao bem-estar, como vitaminas, minerais e aminoácidos.
Outro dado ajuda a entender por que falar em proteína hoje significa olhar para públicos diferentes. Entre os consumidores 60+, 52% consomem suplementos da categoria de proteínas. Nesse grupo, o colágeno aparece para 35%, as bebidas proteicas para 17% e o whey protein para 10%.
Essa mudança acontece em um contexto no qual o próprio entendimento sobre o que é um suplemento alimentar se tornou mais amplo. Em 2025, 91% dos entrevistados disseram entender que os suplementos complementam a alimentação, ante 75% em 2015, enquanto 81% os associaram à saúde e ao bem-estar, frente a 57% dez anos antes. Entre os benefícios percebidos estão aumento da disposição e da energia (36%), melhora da imunidade (25%), auxílio à manutenção da saúde (22%), aumento da resistência do corpo (19%) e aumento da massa muscular (17%).
Nesse caso, pode-se dizer que os alimentos com proteína atendem públicos diferentes de consumidores. Eles podem estar ligados ao exercício e ao desenvolvimento muscular, mas também entram na rotina de quem procura complementar a alimentação, envelhecer com saúde ou simplesmente encontrar formas práticas de consumir o nutriente.
Há também um fator bastante contemporâneo nessa equação: a conveniência. No ritmo das grandes cidades, planejar todas as refeições pode ser um desafio. A disponibilidade de produtos práticos e fáceis de incorporar à rotina amplia as ocasiões de consumo e ajuda a explicar por que a proteína passou a aparecer em categorias tão diferentes.
E, com isso, o mercado ganha escala. Nas estimativas da empresa de pesquisa Euromonitor, divulgadas em matéria da revista Veja, o segmento de alimentos com proteína adicionada já movimenta R$ 2 bilhões por ano no Brasil. Ao lado disso, os números do setor de alimentos para fins especiais confirmam essa tendência. Segundo levantamento da consultoria econômica, Websetorial, no primeiro trimestre de 2026, o consumo aparente de alimentos para fins especiais cresceu 11,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionado pelo crescimento das categorias de complementos alimentares e vitaminas.
Ter mais opções à disposição também exige saber qual produto faz sentido para cada necessidade e em que quantidade. A Pesquisa de Mercado da ABIAD, já citada, também mostra que 64% das recomendações de suplementos vinham de profissionais de saúde em 2025, ante 51% em 2020 e 44% em 2015. Na definição da quantidade, 65% dos consumidores seguiam a orientação de médicos, nutricionistas ou nutrólogos.
Do lado da indústria, o desafio é atender a um consumidor que presta cada vez mais atenção ao que compra. Segundo a Innova Market Insights, 60% dos consumidores leem a lista de ingredientes dos alimentos e bebidas. E não basta ter proteína. O produto também precisa ser saboroso, prático e cumprir aquilo que promete. Na Fi South America 2026, especialistas mostraram que combinar esses atributos e conseguir produzir em grande escala está entre os desafios do setor.
A regulamentação acompanha esse crescimento. Desde setembro de 2024, a RDC 843/2024 e a IN 281/2024 estabeleceram uma nova forma de regularizar alimentos no Brasil. No caso dos suplementos alimentares, os novos produtos ficaram sujeitos à notificação na Anvisa, antes de chegarem ao mercado e, uma vez notificados, suas informações integram uma base de dados pública da Agência. Já os produtos regularizados pelas regras anteriores seguem um período de transição para se adequar ao novo modelo.
A notificação amplia as possibilidades de monitoramento e controle pelo órgão regulador sanitário, e facilita a identificação pelo consumidor. Os rótulos devem trazer a expressão “Alimento notificado na Anvisa”, seguida do número do processo correspondente.
Com a proteína chegando a mais pessoas e se tornando mais frequente nas refeições, cabe à indústria entender quem são esses consumidores, o que procuram e em quais momentos esses produtos entram na rotina. É a partir dessa leitura que surgem novas formulações, formatos e estratégia de apresentação da proteína ao consumidor.
A expansão do mercado também pode trazer desafios, como alterações nas regras, dúvidas sobre sua aplicação e temas que afetam diferentes fabricantes, e pedem uma discussão conjunta. É nesse espaço que a ABIAD atua, reunindo as associadas em grupos técnicos, acompanhando as mudanças regulatórias e levando questões do setor às discussões com a Anvisa.
Para as empresas associadas, essa participação permite acompanhar de perto o que está sendo discutido, compartilhar dúvidas e experiências com outras companhias e levar questões de interesse comuns ao diálogo com o órgão regulador. Em um mercado que incorpora novos produtos e hábitos de consumo, esse ambiente colaborativo também permite identificar temas emergentes, antes que precisem ser tratados isoladamente por cada empresa.