Entrevista com Janaína Padoveze, gerente de Sustentabilidade da Ajinomoto do Brasil - Abiad

Entrevista com Janaína Padoveze, gerente de Sustentabilidade da Ajinomoto do Brasil

25 de fevereiro de 2026
  1. Quais inovações têm sido aplicadas para responder aos impactos das mudanças climáticas na cadeia produtiva de alimentos?

Quando perguntam sobre as inovações que a Ajinomoto tem aplicado para enfrentar os impactos das mudanças climáticas na cadeia produtiva de alimentos, eu costumo explicar que temos trabalhado em três frentes principais: economia circular, tecnologias de baixo carbono e aplicação da Ciência dos Aminoácidos para agricultura e pecuária.

Primeiro, destaco o Biociclo, que é uma das nossas soluções mais emblemáticas. Ele transforma os co-produtos da fermentação em fertilizantes utilizados no cultivo da cana-de-açúcar, uma das nossas matérias-primas essenciais. Isso não só reduz o uso de fertilizantes químicos, mas também diminui emissões, reaproveita resíduos industriais e reduz a pegada de carbono do ciclo produtivo. É um exemplo concreto de economia circular aplicada em escala industrial.

Outra inovação importante que apresentamos recentemente, inclusive na COP30, é um suplemento de aminoácidos voltado para a pecuária. Essa tecnologia ajuda a reduzir expressivamente as emissões do rebanho bovino, algo crítico no contexto brasileiro. Os resultados estimados mostram redução de 25% nas emissões de óxido nitroso nos dejetos, cerca de 10% de redução de gases de efeito estufa no geral, incluindo o metano entérico, chegando a até 1 tonelada de CO₂ evitada por gado ao ano (o efeito da redução dos gases de efeito estufa varia dependendo da composição da ração).

Além disso, firmamos um memorando com o Banco do Brasil para apoiar pecuaristas na adoção dessa tecnologia e na geração de créditos de carbono.

Por fim, temos ampliado a aplicação da Ciência dos Aminoácidos também na agricultura. Somos fornecedores de bioestimulantes que contribuem para que as plantas absorvam nutrientes de maneira mais eficiente, promovendo aumento da produtividade e maior resiliência climática na base da cadeia. Essa linha de pesquisa complementa nosso esforço de reduzir emissões não só dentro da indústria, mas também no campo, onde boa parte do impacto climático se origina.

  1. Mudanças ambientais também podem influenciar critérios regulatórios, testes de estabilidade e exigências de comprovação técnica. Como esse contexto pode impactar o segmento de alimentos para fins especiais?

As mudanças ambientais estão tornando o ambiente regulatório dos alimentos para fins especiais mais rigoroso, porque afetam diretamente a estabilidade, segurança e qualidade desses produtos. Com temperaturas mais altas e maior variabilidade climática, cresce a exigência por testes adicionais de estabilidade, embalagens mais robustas e comprovação técnica mais completa. Além disso, a oscilação na qualidade das matérias-primas e a pressão por soluções sustentáveis aumentam a complexidade e a velocidade das atualizações regulatórias, exigindo das empresas mais ciência, rastreabilidade e desempenho, mesmo em cenários climáticos extremos.

Na Ajinomoto, temos nos antecipado a esse cenário com inovação ao longo de toda a cadeia. Por exemplo, produzimos aminoácidos para suplementos e nutrição esportiva por meio de processos de fermentação que utilizam a cana-de-açúcar como matéria-prima principal, integrada ao Biociclo, nosso método de produção que reduz significativamente o impacto ambiental ao reaproveitar coprodutos e diminuir as emissões na agricultura. Essa abordagem fortalece a circularidade, aumenta a eficiência do processo e contribui diretamente para a resiliência da cadeia frente às mudanças climáticas.

Além disso, reconhecemos que as mudanças ambientais também influenciam diretamente a estabilidade dos alimentos para fins especiais. Por isso, temos reforçado nossos estudos e controles para garantir que nossos produtos mantenham qualidade e segurança mesmo sob condições de temperatura e umidade mais severas. Paralelamente, avançamos em soluções de embalagens recicláveis e mais eficientes, que ajudam não só a reduzir o impacto ambiental, mas também a proteger melhor os produtos diante de um ambiente climático cada vez mais adverso.

  1. O cenário climático tem levado à reformulação de produtos já consolidados no mercado? Quando isso ocorre, quais são os principais desafios?

Sim. O cenário climático não apenas tem levado à reformulação de produtos existentes, como também à revisão de processos para torná-los mais sustentáveis e resilientes. Na Ajinomoto, temos buscado nos antecipar a essas mudanças justamente para evitar ajustes reativos e garantir que nossos produtos sigam seguros, estáveis e alinhados às novas exigências ambientais.

Um dos focos é a redução do uso de plástico e a substituição por embalagens mais sustentáveis, alinhadas aos princípios de circularidade e logística reversa, sempre com o cuidado de não comprometer a estabilidade e a segurança do produto. Esse movimento vai junto da busca por matérias-primas com menor pegada de carbono e com maior rastreabilidade socioambiental, reduzindo vulnerabilidades ao longo da cadeia.

Também avançamos muito na redução de perdas internas e na valorização dos resíduos que ainda existem, reforçando eficiência e diminuindo impactos climáticos.

Podemos retomar iniciativas já mencionadas anteriormente, como o reaproveitamento de coprodutos para fortalecer a cadeia agrícola e reduzir emissões; o desenvolvimento de suplementos à base de aminoácidos voltados à nutrição animal, que contribuem para a redução de emissões na pecuária e para cadeias proteicas mais sustentáveis; e o uso de bioestimulantes baseados em aminoácidos, que ampliam a produtividade no campo, reduzem riscos associados às condições climáticas e preservam a qualidade das matérias-primas.

Além disso, continuamos avançando também em energia limpa. Em resumo: o clima está pressionando o setor a mudar, e nós estamos respondendo com inovação, ciência e adaptação estratégica em toda a cadeia, do campo ao produto final.

  1. Olhando para os próximos anos, quais avanços tecnológicos ou tendências você acredita que serão decisivos para tornar as formulações mais resilientes às mudanças climáticas?

Quando penso nos próximos anos, vejo três movimentos tecnológicos fundamentais para tornar as formulações de alimentos mais resilientes às mudanças climáticas.

O primeiro é a biotecnologia, que permite produzir ingredientes mais estáveis e menos dependentes das oscilações das safras.

O segundo é o uso de dados no campo, com práticas de agricultura regenerativa combinadas a sensores e monitoramento climático, o que aumenta a previsibilidade das matérias-primas e fortalece a sustentabilidade da cadeia.

E o terceiro é a aplicação de inteligência artificial no desenvolvimento de produtos, permitindo simular cenários, testar alternativas mais sustentáveis e ajustar formulações com muito mais velocidade. A combinação dessas tecnologias ajuda as empresas a manter a performance, garantir segurança de fornecimento e avançar de forma consistente nas metas ESG.

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