Entrevista com Thiago Barros, mestre em Ciências pela UNIFESP, mentor de nutricionistas e nutricionista clínico - Abiad

Entrevista com Thiago Barros, mestre em Ciências pela UNIFESP, mentor de nutricionistas e nutricionista clínico

30 de March de 2026

1. Como a maior disponibilidade de dados sobre composição, origem e qualidade dos alimentos tem impactado a sua conduta nutricional no dia a dia do consultório?

O paciente de hoje chega ao consultório com cardápios montados por inteligência artificial, com conhecimentos adquiridos ao longo de passagens por vários nutricionistas ou com informações garimpadas em perfis de influenciadores e conteúdos de ChatGPT. Ele tem informação, às vezes, ela não está na gaveta certa. Não há clareza sobre o que se aplica a ele, ao seu contexto, à sua realidade.

Essa abundância de dados exige que o profissional tenha, cada vez mais, a capacidade de filtrar, tanto no consultório quanto nas redes sociais. O papel do nutricionista passou a ser pegar essas informações e organizá-las corretamente. Um paciente, por exemplo, chega com dados sobre recomendação de carboidrato no exercício, mas não sabe que a quantidade ideal varia de acordo com a intensidade do treino. Ou então ele leu que é fundamental fracionar a proteína em todas as refeições e passa a se martirizar com isso, sem entender que cada caso é um caso.

Por isso, o nutricionista que se destaca hoje é aquele que sabe usar as ferramentas disponíveis, IAs como ChatGPT, Claude, Perplexity, mas que, acima de tudo, faz o paciente entender que, sem o profissional, tudo isso é só a ponta do iceberg. Com o nutricionista, ele vai muito mais fundo.

2. Quais ferramentas digitais ou baseadas em dados você já utiliza na prática clínica para personalizar as recomendações aos pacientes?

No dia a dia clínico, as inteligências artificiais já fazem parte do fluxo de trabalho. O Perplexity é o mais utilizado quando a demanda envolve dados, por ser mais criterioso nas fontes, oferece mais segurança nesse tipo de consulta. Já o ChatGPT e o Claude entram com prompts personalizados, adaptados à rotina do consultório, o que permite extrair respostas muito mais direcionadas e úteis do que um uso genérico dessas ferramentas.

Para se manter atualizado cientificamente, o PubMed Alert cumpre um papel importante: um mailing semanal com artigos selecionados de revistas e autores de referência, garantindo que a prática clínica esteja sempre ancorada na evidência mais recente.

Na parte de software, o WebDiet, que já conta com IA integrada, concentra uma série de soluções voltadas para a gestão e personalização do atendimento nutricional. E para o suporte ao paciente fora do consultório, o WhatsApp Business, operado por um time humano, sustenta o acompanhamento 1:1, mantendo a proximidade e o cuidado.

3. Como você percebe a relação dos seus pacientes com a informação nutricional hoje e de que forma isso tem influenciado a dinâmica do consultório?

Na minha visão, a relação fica cada vez mais próxima, mas surge uma nova camada de dependência. O paciente depende menos no dia a dia, mas quando ele precisa, o jogo muda completamente. É como o Waze: ele começa a caminhar sozinho, acha que sabe a rota, muda o caminho por conta própria e dá errado. Assim como o aplicativo, o nutricionista recalcula a rota e conduz até o objetivo da forma mais adequada.

Isso cria um tipo de vínculo diferente. Não é mais o paciente que não sabe nada, é o indivíduo que, justamente por ter excesso de informação, às vezes trava. Quanto mais o nutricionista entende que aquele paciente consegue andar mais sozinho, mais a conexão cresce. É como ensinar alguém a andar de bicicleta: se a gente nunca solta, o paciente nunca ganha autonomia de verdade. E autonomia, na minha visão, é exatamente o que se busca dentro do consultório. O meu papel é fazer o paciente pensar com a minha cabeça.

4. Na sua avaliação, quais são os impactos da nutrição personalizada orientada por dados para a prática clínica?

Antes de qualquer coisa, é preciso aceitar que essa é a nova realidade. O grau de consciência do paciente mudou, especialmente aquele que tem suporte próximo e está disposto a investir mais. Ele já chega ao consultório buscando um direcionamento que dialogue com as ferramentas que ele mesmo utiliza, como aplicativos de inteligência artificial. Por isso, mais do que confrontar esse comportamento, o caminho é mostrar como usar essas ferramentas da forma correta, explicando para o paciente: “os dados mostram isso, você faz parte de uma média, mas aqui no consultório eu estou com você de forma individualizada e o ideal para você, com base nesse dado, é isso ou aquilo.”

Isso exige que o nutricionista esteja cada vez mais por dentro dessas novidades e, ao mesmo tempo, cada vez mais atualizado tecnicamente, para que o paciente perceba que, com o profissional ao lado e tudo que está disponível, o processo fica mais fácil e mais eficiente. E há um ponto importante que muitas vezes é deixado de lado: o nutricionista precisa investir em comunicação, persuasão e na construção de rapport, saberes que fazem com que o paciente permaneça conectado. Quem conseguir unir o domínio técnico a essas habilidades vai se destacar e não será impactado pela avalanche de informação que existe por aí.

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