Mudanças no mercado dos nutricionistas

Em homenagem a todos os nutricionistas do Brasil, Panorama ABIAD entrevistou Kathia Schmider, coordenadora técnica da Associação, graduada em nutrição em 1984. Ela fala sobre sua história, as mudanças do setor e os desafios da nutrição.

PANORAMA – O que a levou a querer ser nutricionista?

KATHIA – Foi marcante essa decisão para mim. Eu tinha muita preocupação com a fome no mundo. Pensava em fazer nutrição e ampliar o conhecimento no desenvolvimento de alimentos diferenciados que pudessem suprir essa carência, que ainda existe em vários países.

PANORAMA – E acredita que cumpriu seu objetivo, mesmo que parcialmente?

KATHIA – A gente amadurece e ajusta o sonho com a realidade, mas atingi, com certeza.

Iniciei minha vida profissional na Escola Paulista de Medicina/UNIFESP sempre com foco na área clínica e em Saúde Pública. Quando fui para a indústria, havia poucos alimentos enriquecidos com vitaminas e minerais, sendo muito mais uma questão de marketing. Havia responsabilidade no desenvolvimento do produto, mas não um aprofundamento nas questões de saúde pública. Teve um episódio no qual eu levei todo o conhecimento de necessidades alimentares de mulheres no período de pré menopausa e conversando com um diretor de uma divisão, ele me disse que a empresa não fazia produtos para pessoas doentes (risos). Expliquei que aquilo era prevenção e, a partir de então, começamos a ter alimentos enriquecidos de outra maneira.

Então, de alguma maneira, dei minha contribuição para reduzir as carências alimentares e nutricionais das pessoas.

PANORAMA – Se alguém perguntar para você hoje, se vale a pena ser nutricionista, o que você responde?

KATHIA – Com certeza vale a pena. Ocorreu uma evolução tão grande desde a época da minha graduação para cá, com muita amplitude de locais de atuação para falar da ciência da nutrição. Veio num movimento crescente. Quando me formei, passei por todas as áreas na graduação, mas tínhamos uma atuação mais limitada.

Há oportunidades de cursos de especialização e de pesquisas que podem aprofundar muito mais o conhecimento do nutricionista em diversos temas da Nutrição.

Precisamos nos especializar para sermos bons na área em que estivermos. Entrei na área regulatória que antes não tinha abertura para nutricionistas. Acho que fui uma das primeiras nutricionistas a me envolver nesses temas.

PANORAMA – As principais mudanças para os nutricionistas vieram de dentro das empresas?

KATHIA – O papel do nutricionista nas áreas de clínica e saúde pública já eram reconhecidos, mas quando se pensava no setor privado, nossa atuação era muito periférica. Hoje tem nutricionistas responsáveis por toda uma área de nutrição infantil, por exemplo, que requer conhecimento do todo e não somente da nutrição. Há ainda presença de nutricionistas em relações governamentais, relações institucionais e regulatórios. Tem nutricionistas responsáveis por marketing de produtos (antes até existiam, mas eram vistos com reservas, inclusive por profissionais da área da nutrição), que além de contribuírem com o desenvolvimento de produtos, têm um grande conhecimento dos hábitos do consumidor.

PANORAMA  – O que ocasionou essa mudança?

KATHIA – Foi fruto de muita batalha e do engajamento dos nutricionistas. Tenho alguns profissionais que são ícones e dou muito valor, dado às dificuldades que enfrentaram desde o início.

O primeiro curso de nutrição foi em 1939 na Faculdade de Saúde Pública da USP, e era uma especialização – podia fazer quem tinha formação em Farmácia, Educação Sanitária, Auxiliar de Alimentação e Educação Doméstica. Era um curso para mulheres em uma fotografia do que era a mulher naquela época. Foi o embrião dos cursos de nutrição que virou curso superior em 1962.

Mesmo quando eu cursei, já como graduação, era totalmente feminino, o que também mudou. Os primeiros homens tiveram coragem e hoje existem muitos nomes de respeito na área.

PANORAMA – Quais os desafios atuais da profissão?

KATHIA – Hoje temos uma concorrência muito grande com as informações veiculadas pela internet, “Dr Google”, onde muitos profissionais que não são da área acham que entendem tudo de alimentação e nutrição. Não tínhamos isso dessa forma, e veio de uma maneira tão forte que não conseguimos impedir que alguém divulgue uma informação que vemos estar absolutamente incorreta. Não sou contra os blogueiros, influenciadores digitais e afins, mesmo porque é muito positivo que as informações cheguem rapidamente, mas deve haver responsabilidade quando se trata de temas técnicos.

Vejo até profissionais da área repetirem o que ouvem sem se aprofundar no tema. Ao mesmo tempo há outros profissionais se envolvendo e melhorando a qualidade da informação.

São muitos pontos positivos desde a minha graduação e vários exemplos merecem destaque. Citando dois, eu diria o tempo de aleitamento materno exclusivo entre crianças menores de 6 meses que passou de 2,9%, em 1986, para quase 46% em 2020 e, também, apesar de todas as críticas às indústrias de alimentos, a busca pelo desenvolvimento de produtos nutricionalmente equilibrados, amplamente necessários para o alcance de uma dieta saudável.

 

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