A vez e a hora dos suplementos alimentares

Dra. Tatiana Raposo Pires, Presidente da ABIAD

Foram quase 10 anos de discussão entre o setor produtivo e a Anvisa até a publicação do novo marco regulatório de suplementos alimentares no Brasil, em 2018. Até então, cerca de 10 categorias existentes no país eram, do ponto de vista regulatório, aplicáveis para “suplementos alimentares”, sendo que a própria Agência reconhecia que o arcabouço normativo era fragmentado, com sobreposições entre categorias e requisitos desatualizados, o que prejudicava o controle sanitário, além de criar inseguranças jurídicas e obstáculos à comercialização.

Para o setor produtivo, aquele cenário significava uma grande dificuldade em oferecer ao consumidor novos produtos que pudessem trazer benefícios para a saúde, até então enquadrados em um regulamento desatualizado e engessado. Para o consumidor, restavam poucas alternativas, especialmente quando comparado a mercados mais maduros, como Europa e Estados Unidos. Como os fabricantes têm até 2022 para a implementação de todas as mudanças, ainda devemos observar novos avanços decorrentes da nova legislação, em um mercado estimado de R$ 5,2 bilhões ao ano.

Um dos insumos utilizados pela Anvisa para efetivar essa mudança foi o resultado da 1ª pesquisa sobre hábitos de consumo de suplementos alimentares no Brasil, conduzida pela ABIAD entre 2015 e 2016, que nos trouxe algumas informações extremamente valiosas. Duas delas destaco aqui: (1) mais da metade dos lares brasileiros (54%) possuíam pelo menos um membro que consumia suplementos, e que (2) a maioria dos consumidores buscava informação junto à profissionais de saúde, especialmente médicos e nutricionistas, com foco principal na manutenção da saúde. A capilarização do consumo da categoria no Brasil, por um consumidor bem informado e que se preocupava com a saúde, reforçou a tese de que estávamos em um momento maduro e propício para avançarmos a um novo patamar, condição essa criada, ou facilitada, pelo novo marco regulatório.

Sabemos que o consumo diversificado, consciente e balanceado de alimentos tem um papel importantíssimo no fortalecimento do sistema imune, o que leva a uma potencial redução na predisposição a doenças (ou gravidade de seus sintomas) e superação de condições especiais. A indústria tem avançado muito nos últimos anos, oferendo produtos que possam atender aos diversos grupos, para que o consumidor tenha mais opções e possa fazer suas escolhas.

Felizmente, a mudança de legislação no Brasil chegou em boa hora, pois entramos na pandemia de COVID-19 com acesso mais democrático aos suplementos alimentares.

Ainda é um pouco cedo para afirmar mas, algumas pesquisas com consumidores realizadas recentemente em países que já estão passando para um estágio pós-pandemia – ou ingresso ao “novo normal” – apontam mudanças de comportamento em relação a intenção de compra, como por exemplo, menor interesse em artigos de luxo e, por outro lado,  maior predisposição para gastos relacionados a alimentação e nutrição, e também para a melhora da saúde de forma geral.

A indústria de alimentos tem tido um papel importantíssimo durante o período de emergência relacionado à COVID-19 e uma enorme responsabilidade em manter toda a cadeia em pleno funcionamento. E em momentos nos quais um vírus surge ameaçador e altamente contagioso, levando as pessoas a evitarem o contato social e precisarem confiar na segurança do alimento que ingerem, os alimentos industrializados têm um papel importantíssimo, garantindo qualidade e segurança alimentar para a população

Nesse período de isolamento, com muita gente fazendo home office, ficou mais uma vez provado que não é uma tarefa simples garantir uma alimentação variada e balanceada. Trabalhamos em nossas casas, mas a rotina é uma barreira para a maioria das pessoas quando o assunto é o preparo diário de alimento. Para muitos, caiu o paradigma de que se alimentariam melhor se ficassem mais tempo em casa. É basicamente impossível pensar na vida hoje sem alimentos industrializados, especialmente porque queremos segurança alimentar, praticidade e, sobretudo, longevidade.

Nesse sentido, os suplementos alimentares são excelentes aliados na complementação da alimentação. Voltando aos dados da pesquisa realizada em 2015/2016, os suplementos mais consumidos no país eram os multivitamínicos, seguidos de ácidos graxos (especialmente o ômega 3), minerais (principalmente cálcio) e vitaminas específicas (sendo a vitamina C a campeã). E se compararmos aos dados referentes ao consumo desses suplementos durante os meses de março e abril de 2020, houve um aumento considerável no consumo de multivitamínicos e vitamina C, em função da associação desses suplementos com a imunidade. Acreditamos que, neste contexto, todos os suplementos que tiverem relação com o aumento da imunidade terão um espaço maior na cesta de produtos essenciais das famílias. A título de curiosidade, a Anvisa estabeleceu, por exemplo, alegações relacionadas a imunidade (“auxilia no funcionamento do sistema imune”) para algumas substâncias, como por exemplo, vitamina A, B12, C, D, e alguns minerais, como Ferro e Selênio, dentre outros.

Com a publicação do novo marco regulatório em 2018, os suplementos passaram a fazer parte da categoria de alimentos. E ter os suplementos na área de alimentos foi um pleito muito importante trabalhado pela ABIAD, que na ocasião liderou toda a articulação junto ao setor produtivo. E hoje, como resultado, temos os suplementos incluídos na categoria de produtos/serviços essenciais, o que permitiu uma ação junto à Anvisa e outros órgãos competentes para desenvolver uma série de ações com o objetivo de evitar o desabastecimento da categoria nos pontos de venda em todo o país. Cabe aos associados, por outro lado, manter a qualidade, comunicação assertiva sobre os benefícios e a concorrência leal nesse momento de fragilidade pelo qual passamos, para fortalecermos ainda mais a imagem da categoria frente a todos os atores do mercado.

Encerro este texto comentando que os hábitos da sociedade seguem em constante mudança e, às vezes, em velocidade mais acelerada do que a esperada. Aparentemente, a vontade de consumir rotineiramente suplementos alimentares tem aumentado no Brasil, até pelas mudanças na leitura dos rótulos e riqueza de opções no mercado. Para conhecer o comportamento do consumidor frente a essas mudanças, a ABIAD está conduzindo uma segunda edição da pesquisa sobre o consumo de suplementos alimentares pelos brasileiros e, em breve, teremos novos resultados.

A indústria de suplementos vem investindo cada vez mais para trazer alternativas alinhadas com as necessidades e desejos de todos nós, consumidores. E com o avanço da ciência, teremos sempre novas oportunidades. Sabemos sim que, em algum momento, tudo isso vai passar. Enquanto isso, fico feliz em termos alternativas seguras para o consumo de suplementos e, ainda, do ponto de vista do setor produtivo, estarmos mais fortalecidos do que nunca, atuando de forma colaborativa e responsável junto aos diversos atores, com o compromisso relacionado à entrega de produtos seguros, de alta qualidade e que tragam benefícios para os consumidores.

 

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