1. Qual é a sua opinião sobre a evolução do perfil do consumidor de multivitamínicos no Brasil nos últimos 10 anos? Quem é o atual consumidor?
Nos últimos dez anos, vimos uma transformação muito relevante: o multivitamínico deixou de ser percebido simplesmente como uma forma de “repor vitaminas” e passou a ocupar um espaço muito mais amplo dentro da jornada de autocuidado e gestão ativa da saúde.
O consumidor de hoje é mais informado, mais interessado em prevenção e, sobretudo, mais orientado por necessidades. Ele pensa em energia, imunidade, cognição, performance, envelhecimento saudável e bem-estar ao longo das diferentes fases da vida. Isso muda completamente a forma como devemos pensar a categoria: saímos de uma lógica predominantemente centrada no produto para uma lógica centrada nas pessoas e em suas diferentes necessidades.
Na Haleon, isso conversa diretamente com aquilo em que acreditamos: combinar um profundo entendimento do ser humano com ciência de confiança. Ou seja, entender profundamente como as pessoas vivem e administram sua saúde para, a partir daí, traduzir ciência em soluções relevantes para o cotidiano. Nossas marcas são construídas justamente nessa interseção entre entendimento humano, ciência e inovação.
E acredito que esse seja talvez o maior diferencial do consumidor atual: ele não quer necessariamente mais ingredientes; ele quer mais relevância. Ele quer ser visto como ser único e individual. Quer entender por que aquele produto faz sentido para ele, naquele momento da sua vida, e quer confiar na ciência e na marca que estão por trás dessa escolha.
2. O que as mudanças no perfil do consumidor revelam sobre o momento atual do mercado de multivitamínicos no Brasil?
Elas revelam que estamos entrando em uma nova fase de maturidade da categoria. O crescimento deixa de depender apenas de aumentar penetração e passa também por sofisticar a forma como atendemos necessidades específicas do consumidor.
É uma mudança importante de paradigma: de um mercado historicamente muito baseado em “um multivitamínico para todos” para um mercado cada vez mais orientado por ocasiões, fases da vida, benefícios e necessidades nutricionais específicas.
Isso tem implicações diretas para inovação e portfólio.
Na Haleon, vemos suplementos alimentares como uma plataforma de saúde e bem-estar muito mais ampla. Globalmente, a companhia destaca nutrição, cognição, longevidade e gestão do peso entre os grandes interesses atuais do consumidor e entende a boa nutrição como uma base para outras necessidades de saúde e bem-estar. Nossa ambição na categoria é ajudar consumidores a assumirem maior controle sobre sua saúde por meio de suplementos confiáveis e respaldados por ciência, capazes de contribuir para preencher lacunas nutricionais relevantes.
Por isso, vejo o próximo ciclo dessa categoria menos como uma corrida para colocar mais SKUs na prateleira e muito mais como uma disputa por relevância de portfólio: quem conseguir transformar conhecimento do consumidor em propostas cientificamente robustas, claramente diferenciadas e fáceis de compreender terá uma posição muito mais forte.
Para a indústria, isso significa evoluir de uma lógica de produto único para soluções capazes de acompanhar as diferentes necessidades de saúde das pessoas ao longo da vida.
3. De que forma a ciência sustenta a credibilidade dos multivitamínicos como categoria e orienta as decisões da indústria?
Para mim, a ciência é o fundamento da confiança dessa categoria. Ela não começa em um claim ou na comunicação. Ela começa muito antes. É a ciência que ajuda a identificar necessidades nutricionais relevantes, entender quais populações podem se beneficiar de determinados nutrientes, definir formas, combinações e doses, avaliar segurança e construir uma formulação que tenha um racional claro.
Essa é uma discussão particularmente importante em multivitamínicos porque mais não significa necessariamente melhor. Um bom produto não deveria ser definido pelo maior número possível de nutrientes ou pelas maiores doses possíveis, mas pela qualidade da decisão científica por trás da formulação.
Essa lógica é extremamente conectada à maneira como construímos nossas marcas na Haleon: a “Ciência de Confiança” não é uma mera assinatura corporativa, mas é um critério de decisão. Ciência orienta desenvolvimento, inovação, claims, comunicação e as escolhas sobre onde devemos (e onde não devemos) atuar.
Nessa mesma linha, eu acredito que exista uma oportunidade enorme de tornar essa ciência mais acessível. O consumidor não precisa conhecer todos os detalhes técnicos de uma formulação, mas precisa entender por que aquele produto existe, para quem ele foi pensado e qual benefício pode legitimamente oferecer. É justamente aí que a ciência deixa de ser apenas evidência e passa a gerar confiança.
4. Como as regulamentações brasileiras têm acompanhado o crescimento do mercado de multivitamínicos e qual é o impacto disso?
Eu vejo a evolução regulatória brasileira como parte do próprio amadurecimento da categoria.
O Brasil avançou de maneira significativa na estruturação regulatória da categoria. Um marco fundamental foi a criação, em 2018, de uma categoria específica de suplementos alimentares, consolidando produtos que anteriormente estavam distribuídos em diferentes enquadramentos e estabelecendo regras próprias para constituintes autorizados, limites mínimos e máximos, populações, segurança, rotulagem e alegações.
Mais recentemente, observamos uma segunda etapa dessa evolução. Desde setembro de 2024, os suplementos alimentares passaram a estar sujeitos à notificação junto à Anvisa, ampliando a rastreabilidade e a visibilidade regulatória da categoria.
À medida que o mercado cresce, ganha novos consumidores, novos ingredientes, formatos e propostas de benefício, é natural que também aumentem as expectativas sobre segurança, qualidade, rastreabilidade, evidência e comunicação responsável.
É nesse contexto que sempre reforço: regulação e inovação não deveriam ser vistas como forças opostas.
Em uma companhia como a Haleon, com um portfólio construído a partir de marcas de escala global e ciência robusta, uma regulação clara e previsível é fundamental porque cria as condições para que possamos inovar com velocidade, mas também com responsabilidade. A própria estratégia da companhia combina marcas superiores, ciência confiável, inovação e entendimento do consumidor.
O desafio regulatório daqui para frente será acompanhar a velocidade com que ciência e comportamento do consumidor evoluem. Isso significa ter fluxos de trabalho capazes de incorporar novos ingredientes, novas evidências, novos formatos e novas necessidades de saúde, mantendo sempre um alto padrão de proteção ao consumidor, além do fortalecimento e estreitamento do diálogo setorial para a constante modernização do aparato regulatório, tendo o consumidor sempre em primeiro lugar.