Entrevista com Alina Gandufe, Especialista em Assuntos Regulatórios e Emerson Diniz, Head LATAM de Marketing e Desenvolvimento de Negócios para Lácteos da Novonesis - Abiad

Entrevista com Alina Gandufe, Especialista em Assuntos Regulatórios e Emerson Diniz, Head LATAM de Marketing e Desenvolvimento de Negócios para Lácteos da Novonesis

26 de May de 2026

1. Como evoluiu o uso de probióticos e outros bióticos no mercado brasileiro de alimentos para fins especiais nos últimos anos?

O uso de probióticos e outros bióticos no Brasil evoluiu de uma abordagem mais ampla e genérica, em que “probiótico” era muitas vezes associado a bem-estar ou saúde digestiva de forma geral, para uma lógica muito mais precisa, científica e regulada.

Um marco importante foi a RDC 241/2018 da Anvisa, que definiu claramente probióticos como microrganismos vivos que, em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde, e passou a exigir comprovação de segurança e eficácia. Na prática, isso elevou o nível de rigor do mercado: hoje é necessário discutir identificação em nível de cepa, dose, benefício comprovado, público-alvo e aplicação adequada no produto.

Do ponto de vista de mercado, essa evolução também aparece nos dados. Segundo dados da Euromonitor, a categoria de Probiotic Yogurt and Sour Milk Products no Brasil cresceu de USD 363,5 milhões em 2020 para USD 527,0 milhões em 2025, representando um CAGR de 7,7% entre 2020 e 2025. A projeção para 2029 é de USD 797,9 milhões, equivalente a um CAGR projetado de 10,9% entre 2025 e 2029. Isso indica que os lácteos seguem como a base mais consolidada dos probióticos no país, mas ainda com espaço relevante de crescimento.

Além disso, a discussão deixou de estar limitada aos probióticos e passou a englobar um universo mais amplo de bióticos, incluindo prebióticos, simbióticos, pós-bióticos, oligossacarídeos e HMOs, todos conectados à modulação do microbioma.

Globalmente, segundo dados da Euromonitor, os probióticos já estão presentes em aproximadamente 30 categorias, enquanto no Brasil aparecem em cerca de 9 categorias, em diferentes estágios de maturidade. Isso mostra que o mercado brasileiro ainda é mais concentrado em formatos consolidados, especialmente lácteos, mas começa a se expandir para suplementos, nutrição infantil, fórmulas e demais categorias.

Portanto, a evolução não é apenas regulatória ou científica. É também uma mudança de narrativa: o mercado está expandindo além da lógica de “probiótico = iogurte” e avançando para uma visão mais ampla de microbioma, com soluções direcionadas para diferentes fases da vida, necessidades nutricionais e objetivos específicos de saúde.

2. Quais fatores impulsionam a consolidação desses ingredientes na indústria brasileira?

A consolidação dos probióticos e outros bióticos no Brasil é impulsionada por uma combinação de maior conhecimento do consumidor, avanço científico, maior clareza regulatória e expansão das ocasiões de consumo.

Um fator muito relevante é o conhecimento. Uma pesquisa global da Novonesis focada em produtos fermentados indicou que 71% dos consumidores brasileiros da categoria possuem familiaridade com o termo “probióticos”, acima dos 60% observados na base global. O mesmo estudo aponta que, quanto mais os consumidores conhecem e entendem sobre probióticos, maior tende a ser sua satisfação com a categoria. Isso reforça a importância da comunicação clara e da educação do consumidor, especialmente para diferenciar cepas, benefícios e aplicações.

Além disso, a demanda por saúde digestiva, imunidade, nutrição infantil e envelhecimento saudável vem ampliando o interesse por soluções bióticas. Esse movimento é reforçado tanto por consumidores quanto por profissionais de saúde, que buscam produtos com benefícios mais claros e melhor sustentados por evidência científica.

Do ponto de vista de mercado, os lácteos seguem como uma base consolidada para probióticos no Brasil, mas o crescimento de suplementos e formatos emergentes sugere que há espaço para propostas mais amplas ligadas ao microbioma. Segundo a Euromonitor, suplementos probióticos apresentam uma trajetória de crescimento relevante, indicando que o consumidor começa a aceitar os probióticos também fora do território tradicional dos iogurtes e leites fermentados.

Outro fator importante é a evolução regulatória. O marco brasileiro se tornou mais estruturado e baseado em risco, o que aumenta o nível de exigência, mas também traz mais previsibilidade para empresas que desejam inovar de forma responsável. Nesse contexto, a consolidação tende a favorecer empresas que conseguem unir ciência, formulação adequada, estabilidade, comunicação responsável e comprovação de benefício. A criação de caminhos regulatórios claros é um habilitador-chave para inovação, diferenciação e uso adequado de claims baseados em evidência.

3. Como as empresas do setor têm incorporado o conhecimento científico sobre bióticos no desenvolvimento de novos produtos?

As empresas mais preparadas têm incorporado o conhecimento científico sobre bióticos de forma muito mais estratégica e menos superficial. O ponto de partida deixou de ser simplesmente “adicionar um probiótico” a um produto e passou a ser o desenho de uma solução completa, considerando população-alvo, necessidade nutricional, benefício esperado, ingrediente adequado, dose, estabilidade e caminho regulatório.

Na prática, isso significa responder a perguntas bastante objetivas: qual cepa ou ingrediente faz sentido para aquele benefício? Qual é a evidência disponível naquela população? Qual dose é necessária? O ingrediente é estável na matriz escolhida? O produto mantém o desempenho até o final da validade? E o claim pretendido é compatível com a evidência disponível?

Esse movimento está alinhado com uma tendência mais ampla observada no mercado: o futuro não é apenas “adicionar probióticos”, mas desenhar soluções mais precisas para o microbioma. Isso envolve maior integração entre probióticos, prebióticos, simbióticos e pós-bióticos, além de uma visão mais clara sobre público-alvo, benefício e formulação.

Também existe hoje mais rigor no uso da terminologia. Nem toda cultura viva é um probiótico, nem toda fibra é um prebiótico e preparações não viáveis não devem ser tratadas como probióticos. Essa precisão é essencial tanto para o desenvolvimento técnico quanto para a comunicação com consumidores, profissionais de saúde e órgãos regulatórios.

Outro ponto relevante é o crescimento das formulações combinadas, que podem reunir probióticos, prebióticos e outros componentes funcionais. Essa abordagem é promissora, mas exige ainda mais ciência, porque não é possível assumir que a simples combinação de ingredientes garante o benefício final. O valor está em comprovar que a formulação, como um todo, entrega o efeito pretendido de forma segura, estável e defensável.

4. Quais oportunidades se abrem para empresas brasileiras nesse contexto?

As oportunidades para empresas brasileiras são relevantes, mas exigem uma abordagem muito mais científica, responsável e estratégica. O Brasil pode se consolidar como um mercado de referência ao tratar os bióticos não apenas como ferramentas de marketing, mas como componentes científicos de soluções nutricionais completas.

Uma primeira oportunidade está na expansão para além dos formatos tradicionais. Embora os lácteos sigam como uma base importante, o crescimento de suplementos e formatos emergentes sugere espaço para novas propostas ligadas ao microbioma.

Outra oportunidade está na criação de soluções mais direcionadas. A tendência científica é sair do “probiótico para todos” e avançar para produtos que combinem cepas específicas, benefícios claros, público-alvo bem definido e formulações adequadas. Isso se conecta com o avanço da nutrição de precisão e com a necessidade de reconhecer que não existe uma solução única para todos os consumidores.

Ao mesmo tempo, existe um limitador importante: o entusiasmo do mercado não pode avançar mais rápido do que a evidência clínica e regulatória. Ainda precisamos de estudos em humanos que atendam aos requisitos regulatórios regionais específicos para respaldar claims mais avançados.

No caso brasileiro, também é importante reconhecer que o avanço científico em microbioma nem sempre é acompanhado no mesmo ritmo pela evolução regulatória. Ainda existem lacunas no enquadramento de novas categorias, como pós-bióticos, bioativos e soluções strain-specific, o que pode gerar incerteza regulatória para empresas que desejam inovar nesse espaço.

Por isso, a principal oportunidade competitiva não será apenas ter um ingrediente inovador, mas conseguir provar benefício real de forma robusta e defensável. Empresas que conseguirem combinar respaldo científico, estabilidade de formulação, clareza regulatória e comunicação responsável terão mais condições de liderar o próximo ciclo de crescimento dos bióticos no Brasil.

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