1. Como foi sua trajetória até chegar à liderança na Marjan, e quais experiências foram mais decisivas para moldar seu estilo de gestão e sua visão de liderança?
Desde a minha graduação em Medicina na Universidade Federal de São Paulo, sempre gostei da disciplina de Farmacologia porque entendia que o segredo de um bom atendimento médico, além de um diagnóstico acurado, seria o entendimento de todas as alternativas terapêuticas, suas interações e um conhecimento aprofundado do mecanismo de ação dos mais diferentes ingredientes e ativos.
Chegou o momento de escolher minha especialização e meu objetivo foi o de focar em especialidades menos “nichadas” com uma visão que não se limitasse apenas ao tratamento da doença, mas sim na valorização de um cuidado integral ao paciente, aliando prevenção e qualidade de vida. Quando me formei em 1988, a Geriatria era uma disciplina inserida no Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP, o que foi essencial para minha visão da Epidemiologia como importante instrumento de medição de impacto populacional e de pesquisa acadêmica. Após este período fui fazer uma especialização em Síndromes Demenciais na University of Pennsylvania. Isto moldou o que eu almejava no futuro. Gostaria de trabalhar em algo que unisse ciência, mas que tivesse impacto populacional. Foi a partir daí que um professor meu me disse que eu tinha um perfil adequado para trabalhar em indústria farmacêutica. Posteriormente, fiz uma especialização em Nutrologia buscando justamente esta visão mais estratégica de conhecimento para um cuidado mais abrangente ao paciente.
Ao longo de 32 anos de experiência em farmacêuticas, fui ampliando meu campo de atuação, passando por áreas que exigem rigor técnico, visão estratégica e capacidade analítica. Na Marjan Farma sou responsável pela área de Novos Negócios, Médico-Científica, Assuntos Regulatórios e Pesquisa Clínica. Considero ser muito prazeroso estar à frente de áreas tão distintas e as experiências mais decisivas nesta minha função são justamente aquelas em que se faz necessário traduzir o rigor científico da Pesquisa Clínica em viabilidade comercial para Novos Negócios, sem jamais perder o alinhamento com o Regulatório.
Meu estilo de gestão é totalmente transparente. Como sou responsável por diversas áreas, acredito que cada gestor e cada colaborador das minhas áreas são os detentores do conhecimento aprofundado das mesmas. É extremamente importante que eles conheçam as informações que detenho e que eu, principalmente, tenha escuta ativa e imparcial sobre o que os colaboradores me trazem. Nenhum líder por mais experiência detenha, tem conhecimento de tudo! O líder pode ter mais experiência estratégica, mas são seus colaboradores e gestores os principais responsáveis pelo sucesso de um líder. Além disso, costumo dar autonomia aos colaboradores para expressarem suas opiniões verdadeiras, independente das minhas!
Por toda minha experiência acadêmica e profissional prévia, posso afirmar que meu estilo de gestão foi muito moldado por essa vivência multidisciplinar. Uma liderança transparente, democrática e com escuta ativa forma times tecnicamente preparados e com capacidade de olhar “out of the box”. E como líder de saúde, minha função é criar pontes entre a ciência e o consumidor/paciente, entre a regulação e a inovação, entre o propósito da empresa e as necessidades da classe médica e dos consumidores. Um líder de saúde precisa ser um facilitador de todo este ecossistema. Uma boa decisão na área da saúde não deve ser apenas uma decisão comercial, mas precisa ser também uma decisão ética, científica e que atenda uma necessidade relevante de mercado.
2. O setor de alimentos para fins especiais exige uma integração muito próxima entre ciência, regulação e mercado. Como a Marjan equilibra essas três dimensões no dia a dia e o que isso representa em termos de desafios e oportunidades?
Este equilíbrio é essencial para o setor. A integração entre ciência, regulação e mercado para alimentos para fins especiais devem ser integradas desde a origem da ideia até o desenvolvimento, posicionamento, comunicação e acompanhamento do produto em nosso mercado. Na prática, a ciência deve responder à seguinte pergunta: “isto faz sentido para a saúde ou será realmente necessário para a saúde?”, quanto à regulação deve ser respondida a seguinte pergunta: “este produto está ou poderá ser devidamente enquadrado em nossa legislação?” e o mercado deve responder ao seguinte questionamento:” isto será relevante para o mercado e será entendido pelo profissional de saúde ou pelo consumidor?”. Se tivermos as 3 respostas positivas, teremos uma chance de termos algo mais robusto e com maior chance de gerar um valor real e sustentável. Na Marjan, antes de avançarmos com qualquer projeto busca-se analisar justamente a viabilidade científica, regulatória, técnica, necessidades do mercado e posicionamento correto. Isso é muito importante principalmente na categoria de alimentos para fins especiais porque estamos lidando com uma categoria sensível, direcionada a públicos com necessidades nutricionais específicas. O desafio é que a ciência evolui rapidamente e o consumidor tem acesso a muita informação e nem sempre é uma informação qualificada e correta. A desinformação gera prejuízos notáveis no setor porque para quem lida com saúde, o melhor caminho é inovar com responsabilidade, construindo confiança e consistência. Ao lançarmos um alimento para fins especiais com forte respaldo científico, geramos credibilidade tanto para o profissional de saúde quanto para o consumidor/paciente.
3. O que a parceria com a ABIAD representa para a Marjan?
A ABIAD tem um papel relevante para nossa empresa porque reúne diversas empresas com o mesmo objetivo, favorecendo uma interlocução ética junto ao setor regulado e regulador e fortalecendo nosso setor. A parceria com a ABIAD faz com que nossa empresa acompanhe tendências, participe de discussões e desafios regulatórios e principalmente nos represente junto ao setor regulador pontuando as necessidades do setor regulado. Isto contribui para o fortalecimento da categoria de alimentos no setor de saúde. Em setores altamente regulados, é fundamental haver diálogo entre indústria, governo, academia, profissionais de saúde e sociedade. E através da parceria entre ABIAD e nossa empresa, ocorre este espaço de construção coletiva de maneira transparente e democrática. A parceria representa esta união de forças para promover a segurança alimentar, combater a desinformação e auxiliar na construção de um arcabouço regulatório estratégico e necessário para o ecossistema da saúde.
4. O que te move além do ambiente profissional? Há algum livro, podcast ou outro conteúdo que esteja te impactando de alguma forma?
Acredito que minha formação em medicina, geriatria e nutrologia fez com que meu interesse seja principalmente por temas ligados à longevidade, espiritualidade e comportamento humano. São temas que acabam refletindo em relações familiares e qualidade de vida.
Acredito que não exista impedimento para fazermos uma mudança em qualquer momento de nossa vida, se esta mudança for algo que almejamos para a chamada Felicidade. Falando em felicidade, nunca me esqueço de uma palestra que assisti com o filósofo Clovis de Barros Filho sobre o tema “A vida que a vale a pena ser vivida”. Ele escreveu também um livro sobre este tema, que reflete justamente o que penso: não existe uma única receita para uma vida boa e temos que ser soberanos para construí-la!
Um outro livro que relaciona a vida, felicidade e mudanças que nela ocorrem é o “Quem mexeu no meu queijo?” do médico Spencer Johnson. Neste livro somos direcionados a buscar a felicidade, lidar com mudanças de maneira mais prazerosa, sempre com o intuito de atingir o que nos deixa felizes.
E pensando em felicidade no momento profissional, sinto-me realizada como gestora por perceber na minha equipe que faço a diferença na vida deles. Jamais conseguiria ser uma gestora que não colocasse o interesse da equipe à frente do meu próprio interesse. Acredito que “trabalhar feliz” traz resultados mais concretos, mais duradouros e sustentáveis além, obviamente, de liberar as endorfinas que tanto necessitamos no mundo atual!