1. Como a rastreabilidade e o uso de dados estão mudando o processo de desenvolvimento de produtos na indústria de alimentos para fins especiais?
A rastreabilidade deixou de ser apenas um requisito operacional ou regulatório e passou a ser um pilar estratégico no desenvolvimento de produtos. A captura e o uso estruturado de dados ao longo da cadeia — desde a origem da matéria-prima até o produto final — permitem compreender como fatores como processo, armazenamento e logística impactam diretamente a qualidade, a segurança e o desempenho nutricional dos ingredientes. No caso específico dos alimentos para fins especiais, essa visibilidade é fundamental.
A rastreabilidade permite maior controle de riscos e não conformidades; ajustes mais rápidos e assertivos de formulação; consistência entre lotes; e maior confiança por parte de profissionais de saúde, clientes e consumidores.
Além disso, a análise integrada desses dados contribui para acelerar os ciclos de inovação, substituindo decisões baseadas apenas em tentativa e erro por processos mais orientados por evidência e desempenho real dos produtos no mercado.
A volta às origens tem sido um assunto bastante discutido nesse mercado. Essa tendência não significa um retrocesso tecnológico, mas sim uma reconexão com atributos considerados essenciais, como naturalidade, transparência, simplicidade e confiança.
2. Quais tecnologias voltadas à personalização nutricional já são realidade no Brasil e na América Latina, e quais ainda enfrentam barreiras de implementação?
Observo avanços importantes no Brasil e na América Latina em tecnologias de personalização nutricional, ainda que em estágios distintos de maturidade.
Já são realidade: o uso de plataformas digitais para formulação e análise nutricional; sistemas de rastreabilidade digital integrados à indústria, como ERPs, QR codes e projetos pontuais de blockchain; e o desenvolvimento de produtos orientados por dados populacionais e necessidades específicas, como redução ou exclusão de determinados nutrientes e fortificação direcionada.
Por outro lado, ainda enfrentamos barreiras relevantes: a integração de dados genéticos, epigenéticos e de microbioma à formulação de alimentos; o uso amplo de inteligência artificial para personalização nutricional em escala industrial; e a coleta e análise de dados do consumidor final em tempo real, principalmente por questões de custo, infraestrutura e privacidade.
Entendo que os principais desafios estão ligados à infraestrutura tecnológica, à disponibilidade de dados confiáveis, à capacitação técnica para transformar grandes volumes de informação em soluções aplicáveis, seguras, replicáveis e regulatoriamente adequadas.
Nos últimos anos, temos trabalhado com avaliação de expressão gênica de nossos ingredientes considerando grupos específicos, como mulheres menopausadas, praticantes de atividade física urbana e de alta performance, usuários de análogos de GLP-1, e saúde do homem, entre outros. Temos realizado estudos autorais e em colaboração, produzindo publicações internacionais baseadas nesses temas.
3. Na sua visão como especialista, quais são os maiores desafios técnicos e operacionais para que a rastreabilidade se torne um padrão efetivo na cadeia produtiva?
Apesar dos avanços, entendo que a consolidação da rastreabilidade como padrão ainda enfrenta obstáculos importantes, como a heterogeneidade da cadeia produtiva, com diferentes níveis de maturidade digital entre fornecedores; a falta de padronização dos sistemas e da linguagem de dados; as cadeias de custódia; os custos de implementação e manutenção das tecnologias; e a necessidade de governança e gestão eficiente das informações geradas.
Para que a rastreabilidade seja realmente efetiva, é fundamental que as empresas enxerguem esse processo não apenas como uma exigência normativa, mas como uma ferramenta de ganho de eficiência, redução de riscos e geração de valor. Isso exige colaboração entre os diferentes elos da cadeia e uma mudança cultural clara em relação ao uso estratégico de dados.
4. Como o ambiente regulatório brasileiro influência e impacta as inovações do setor?
Na minha visão, o ambiente regulatório brasileiro tem um papel relevante na inovação do setor. Por um lado, é essencial para garantir a segurança do consumidor e a credibilidade dos alimentos para fins especiais, considerando pontos que não impeçam a inovação no setor. Esses produtos impactam diretamente a saúde e, portanto, exigem critérios técnicos rigorosos.
Por outro lado, a velocidade da inovação tecnológica frequentemente supera o ritmo das atualizações regulatórias. É um ponto importante de atenção! O consumidor quer usar o que vê fora do Brasil, o que vê nas mídias sendo apresentado como tendência (prediction).
Isso gera desafios para a implementação de soluções baseadas em dados, personalização nutricional e novas abordagens de comprovação científica.
Ainda assim, acredito que empresas que incorporam o entendimento regulatório desde as fases iniciais de desenvolvimento conseguem inovar de forma mais segura e sustentável. O diálogo contínuo entre indústria, academia e órgãos reguladores é fundamental para que o ambiente normativo acompanhe a evolução do setor sem comprometer a proteção do consumidor. Esse diálogo é primordial e inadiável!
Alimentos para fins especiais não são medicamentos — devem ter regulação distinta, permitindo ao consumidor fazer escolhas alinhadas à sua rotina alimentar, necessidades individuais e orientação profissional.
Hoje, a personalização, em muitos casos, baseia-se na prescrição do profissional de saúde, indicando produtos industrializados para serem utilizados como suplementação de uso contínuo. Essas escolhas alimentares devem garantir segurança e percepção de sua funcionalidade no uso.
A indústria de ingredientes tem um grande desafio em desenvolver e criar ingredientes que atendam padrões técnicos, sensoriais e regulatórios, e que correspondam às expectativas das indústrias fabricantes de produtos finais.