1. O que você observa sobre o que está motivando as pessoas a se movimentarem mais e o que elas buscam além da performance física?
Atualmente, o movimento do corpo por meio da atividade física vai muito além do controle de doenças e do cuidado com a aparência. Nas últimas duas décadas, observa-se uma mudança importante nas motivações para o exercício, que passou a ser associado a promoção da saúde integral de quem o pratica, assim como a prevenção de doenças crônicas, a longevidade com autonomia e a melhoria da qualidade de vida. A decorrência da pandemia da Covid-19 em 2020, contribuiu para aumentar a preocupação com o corpo e a mente das pessoas.
Diante do isolamento social, a atividade física foi uma das principais estratégias para a saúde mental e bem-estar psicológico e esta tendência tem permanecido. A revista científica The Lancet, uma das revistas cientificas de medicina mais respeitadas do mundo, reforça que além da performance física, o exercitar passou a ser tratado como uma das intervenções mais eficazes tanto para a prevenção de doenças quanto para promover saúde física e mental ao longo da vida. Dessa forma, além da performance, as pessoas buscam hoje equilíbrio emocional, qualidade de vida, autonomia e um envelhecimento mais saudável.
2. O brasileiro urbano, que pratica atividade física hoje, tem um perfil muito diferente de 10 anos atrás?
Há evidências de que o perfil do praticante urbano de atividade física mudou significativamente nos últimos 10 anos. Hoje, observa-se uma prática mais diversificada, com maior preocupação com saúde integral, saúde mental e qualidade de vida, enquanto anteriormente predominavam objetivos ligados ao emagrecimento e à estética. O crescimento das corridas de rua, do ciclismo, dos treinos funcionais, das modalidades ao ar livre e do uso de tecnologias, também modificou a forma como as pessoas se relacionam com a atividade física. Além disso, houve uma ampliação do público praticante, incluindo mais adultos de meia-idade e idosos, impulsionada pelo envelhecimento populacional e pela busca por autonomia e prevenção de doenças.
3. Na sua experiência, como o praticante urbano tem equilibrado a busca por resultados físicos com outros aspectos do bem-estar?
De acordo com minha vivência como profissional de educação física e especialista pela Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein em doenças crônicas e pós-graduado em Pilates e ioga, o praticante tem equilibrado a busca por resultados físicos e o bem-estar integral. Embora objetivos como emagrecimento, ganho de massa muscular e performance continuem sendo importantes, cresce o interesse por práticas que também promovam redução do estresse e melhora da saúde mental como um todo. Percebo uma valorização crescente de atividades físicas em lugares ao ar livre ou em rotinas que incluem uma atividade que traga a tranquilidade, o foco, o relaxamento e o equilíbrio emocional, como por exemplo, a meditação, a ioga ou até terapias de bem-estar que possam estar relacionadas com o corpo. Além disso, a participação em grupos de treino tem fortalecido o senso de pertencimento e a motivação, tornando a rotina de treinamento uma experiência não apenas voltada ao corpo, mas também as relações sociais e ao bem-estar psicológico com essas novas tendências.
4. O que ainda falta em termos de educação e orientação para quem começa a se exercitar?
Embora cada vez mais pessoas estejam iniciando à prática de atividade física, ainda existe um importante desafio relacionado a educação em saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 31% dos adultos no mundo não atingem as recomendações mínimas do exercício físico e destaca a necessidade de ampliar o acesso a orientações baseadas em evidências, para que o exercício seja realizado de forma segura, progressiva e individualizada, favorecendo melhores resultados, maior adesão e menor risco de lesões.
A literatura, tanto no Brasil quanto internacionalmente, mostra que a orientação de profissionais qualificados continua sendo um dos principais fatores para melhorar a qualidade da prática do exercício físico.